O exercício de liderar têm sido foco de pesquisas e fonte de reflexões ao longo de toda a história humana. Essa questão é tão importante que, na perspectiva do norte-americano, Bernard Bass, especialista em liderança, comportamento organizacional e fundador do Center for Leadership Studies na Binghamton University, em Nova Iorque, o estudo da História tem sido, na verdade, o estudo dos líderes – sobre o que e por que eles fizeram o que fizeram. Já o filósofo grego Platão, descreveu seu ideal de “rei filósofo”: um líder que deveria ser educado com a razão.

As teorias e perspectivas são inúmeras. Na atualidade, por exemplo, a teórica e militante negra norte-americana, Angela Davis, argumentou em seu discurso feito em 2017, na UFBA, em Salvador, que a verdadeira liderança não tem que buscar dar visibilidade ou poder a indivíduos, mas enfatizar o poder coletivo. Mas e os aspectos femininos e masculinos na liderança?

Diante de tantos pontos de vista, cabe o questionamento sobre o que significaria, de fato, ser um grande líder e quais aspectos sociais seriam realmente importantes para compor esta característica. Para a especialista em desenvolvimento de líderes e consultora organizacional, Ana Lícia Reis, a integração dos aspectos femininos e masculinos formula o melhor resultado possível para se tornar um líder de sucesso.  Ana irá ministrar uma palestra sobre este assunto na Cosy, no dia 25 de outubro e respondeu algumas questões que permeiam esse debate – dando uma breve análise do que será aprofundado durante o evento. Confira a entrevista completa abaixo:

Cosy – Qual o significado de liderança? Existem diferentes tipos de liderança?
Ana Lícia Reis – De forma objetiva eu diria que liderança é a habilidade ou capacidade de aglutinar pessoas em prol de um objetivo comum, dentro de um acordo tácito ou explícito. Eu acredito que a natureza humana traz a liderança como uma característica latente, que pode ou não ser desenvolvida ao longo da vida. Algumas pessoas têm maior preferência e facilidade com isso, mas a maior parte de nós já acabou realizando algum projeto no qual precisou reunir pessoas para desenvolver algo. A liderança pode ser formal – na qual há uma posição reconhecida e um poder outorgado pelo cargo – e informal, que pode ocorrer por influência de uma especialidade técnica, protagonismo pessoal ou necessidade circunstancial. Existem também os diferentes estilos de liderar, que podem ser mais democráticos, consultivos, autocráticos ou mais livres. Estes estilos podem funcionar positiva ou negativamente, conforme a maturidade do grupo ou a situação.

Na sua concepção, o que é ser um bom líder?
Existem referências de mercado ou organizacionais que costumam definir o líder ideal estabelecendo competências específicas em cada caso. E há também uma idealização da liderança, muitas vezes a definindo com um perfil inatingível. A liderança tem um tanto de técnica e um tanto de arte e esse mix é que faz surgirem os bons líderes. Atualmente se referência bastante o líder formal e informal, que tem uma visão mais global da posição que ocupa, tendo um olhar genuíno de desenvolvimento humano, uma atenção sistêmica aos negócios e a capacidade de direcionar os resultados necessários para o fim comercial.
Algo que considero como um bom fundamento é o líder se reconhecer como uma chave de liderança, entender que as decisões e percepções a serem tomadas, sejam individualmente ou em grupo, passarão inevitavelmente por suas referências internas. Por isso a importância de que o líder desenvolva o autoconhecimento e compreenda como opera seu modelo mental.

Quais são as características comumente consideradas masculinas e as femininas na liderança?
Feminino e masculino – e coloquei o feminino primeiro, pois neste momento estamos vivendo um momento no qual os aspectos femininos precisam ser revelados à sua importância – são duas polaridades, na minha visão pessoal, da natureza humana, portanto, além do gênero. Apesar de estarem contidos tendenciosamente nos gêneros por conta das nossas histórias ouvidas e vividas, ou seja, nossa formação fisiológica, psíquica e social. Assim, as características atribuídas ao feminino tendem a ser as mais receptivas, que envolvem diversidade e empatia, facilitando os desenvolvimentos processuais e criativos, que favorecem os insights e as inovações. Já as masculinas são consideradas as mais objetivas e assertivas, importantes para uma decisão lógica e rápida, para ordem e o discernimento, ligados também à força e ao direcionamento que favorecem o alcance de resultados num curto prazo.

Como a divisão de características atribuídas aos gêneros feminino e masculino atrapalha as pessoas a conseguirem desenvolver o máximo de seu potencial? 
A falta de integração das polaridades não só atrapalha o desenvolvimento da potencialidade do ser humano, como também do desenvolvimento dos liderados. É natural que no início de nossa carreira usemos mais nossas forças, habilidades que não necessitamos investir muita energia para alcançar destaque e bons resultados, o que naturalmente irá nos polarizar para alguns dos aspectos predominantemente. Porém, à medida em que vamos assumindo mais desafios na vida e na carreira, algumas características não desenvolvidas nos são exigidas. É aí que entra a necessidade de desenvolvermos e integrarmos esses dois aspectos, especialmente na liderança em que há uma complexidade na tomada de decisão. É verdade também que podemos utilizar as forças de outros e integrarmos essas polaridades nos times, entretanto, o que enxergo hoje nas organizações é a necessidade de mais valorização das características tidas como femininas, para que, tanto elas como as masculinas, sejam entendidas em sua importância e fortalecidas individualmente.

Quais estratégias podem ajudar a transpor essas imposições de gênero? Como mencionei, essa imposição é, na minha visão, biopsicosocial, ou seja, tanto uma questão biológica ligada à espécie, como psicológica e social referente aos gêneros –  reforçada na nossa retórica e forma de viver. Reforçamos no discurso que incentiva que cada gênero se mantenha na sua natureza esperada. Falando do ponto de vista das organizações, historicamente as empresas foram forjadas por homens, por isso os estereótipos do gênero masculino se tornaram predominantes nesses espaços. Isso levou mulheres a terem que fortalecer e valorizar em si aspectos construídos como masculinos socialmente para se encaixarem e participarem deste universo. A minha perspectiva é que hoje possamos buscar validar e valorizar os dois aspectos igualmente e situacionalmente. Assim, a estratégia número um para transpor essa imposição limitadora é acreditar e confiar na importância de integrar o feminino ao masculino e vice-versa, tanto a partir do indivíduo, quanto dentro das equipes.

Como participar?

Liderança: os aspectos femininos e masculinos na gestão, por Ana Lícia Reis
Local: Cosy – Casa Original: Av. Morumbi, 4.858.
Data: 25/10
Ingresso: R$33,00
Para participar do evento, clique aqui. 
A Cosy fica a 10 minutos da estação São Paulo-Morumbi do Metrô.
Valet: R$26,50
*Apresentar documento de identificação com foto na chegada ao evento.

Quem é Ana Lícia Reis?
Ana Lícia Reis é especialista em desenvolvimento de líderes e consultora organizacional há mais de 25 anos, atua como coach executivo há 15. É sócia-fundadora da PlenaMente DHO, trabalhando com desenvolvimento de líderes; transformações das pessoas, times e organizações. MBA em Gestão Empresarial pela FGV, conta com formações nos conceitos de Metanoia, Eneagrama Terapia Familiar Sistêmica, e dinâmicas de grupo.